Saramago, Pilar e a Rosa (de Baleizão)

Hoje veio-me ao pensamento as conversas que tive com José Saramago, nas várias feiras do livro que anualmente se realizam no Parque Eduardo VII, em Lisboa.
A feira do livro que agora decorreu em Lisboa veio reavivar as minhas memórias, que pertencem a um passado ainda muito recente. As conversas ocasionais, umas mais demoradas do que outras, entre mim e alguns escritores que, em cada ano, por lá passaram, (numa tentativa de quebrar barreiras entre autores e públicos diversos) deixaram marcas na minha vida.

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Sempre tive uma grande paixão pela leitura e pelas novas descobertas que fazia através dos textos que ia lendo, relendo, e (des)construindo. O prazer pela leitura – hábito que me foi transmitido pelo meu pai, que tinha em casa, ou seja, em Baleizão, cerca de duas dúzias de livros, alguns deles proibidos pela censura – sempre me acompanhou. Por outro lado, a formatação (como agora se diz, numa aproximação à linguagem informática) do pensamento dos escritores foi sempre para mim uma verdadeira incógnita. Por isso, nos anos cinquenta e sessenta do século XX, como não havia nenhuma biblioteca em Baleizão, a biblioteca itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian era um oásis no deserto das minhas férias escolares.

Já adulta, a obra de José Saramago marcou-me profundamente. Daí a minha aproximação ao escritor, nas feiras do livro. Homem nascido no seio do povo, com uma inteligência brilhante, mas também um ser humano de uma grande simplicidade, simpatia e serenidade… e um excelente conversador. As nossas conversas giravam em torno do esquecimento a que foi votado o Alentejo, das lutas, desigualdades e injustiças sociais, das assimetrias regionais, dos direitos humanos e de muitos outros temas que afligiam o mundo. Outro interessante tema de conversa era o do trabalho que diariamente desenvolvia na ilha que escolheu para viver ao lado da jornalista e tradutora espanhola Pilar del Río – a Ilha de Lanzarote.

No início deste ano, ao passar em frente da Casa dos Bicos, não resisti à tentação de revisitar a Fundação José Saramago, em frente da qual foi, por vontade do nosso Prémio Nobel, plantada uma oliveira, à sombra da qual apetece imaginar um grupo de cante alentejano, com as suas belas vozes a prestar homenagem a um dos nossos escritores já consagrados.

Nesta demorada visita à Fundação José Saramago conheci a Rosa (natural de Baleizão) companheira de luta de Catarina Eufémia e que ainda muito jovem participou, durante a ditadura, em outras lutas, pelo direito ao trabalho e outros direitos sociais.
A Rosa (de Baleizão) conheceu e acompanhou José Saramago e Pilar del Río durante muitos anos da sua vida.

Agora, ali estava ela, à minha frente, com um olhar forte e penetrante a contar-me as suas histórias de vidas, com tanta emoção, que jamais as poderei esquecer…
Aqui fica a minha gratidão a José Saramago, à Pilar del Río e à Rosa (de Baleizão) pelas suas histórias de vidas, pelos testemunhos que conseguem e sabem transmitir às novas gerações e pelos momentos inesquecíveis que me proporcionaram na Fundação José Saramago, cuja visita é um dever de cidadania.

Domitília Soares

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