Desilusão e exclusão (Portugal, e o futuro?)

Manuel da Silva Ramos pode ser considerado um escritor multifacetado. O seu livro chamado Portugal, e o futuro? (1999) é totalmente diferente da sua primeira obra – Os Três Seios da Novélia (1968), não só no que diz respeito à fábula, mas também no tocante ao tipo de linguagem.

O tom violento, sarcástico e áspero empregue em Portugal, e o Futuro?, coaduna-se com a caricatura feroz a Portugal do futuro, isto é, no ano 2020; tendo o narrador 73 anos, tal faz coincidir o seu ano de nascimento com o do seu criador Manuel da Silva Ramos.

Além disso, a língua popular, até, às vezes, o calão, usada pelo escritor toca-nos, surpreende e encaminha-nos para uma forte crítica. O narrador fala com o leitor e conta o seu destino em calão de Lisboa, local onde também se passa a narrativa de “Portugal, e o Futuro?”. O calão não é usado nesta obra por acaso, apenas para o divertimento do leitor ou para dificultar a leitura e fazer, por esta via, a escolha do público ledor. Parece-me servir para demonstrar o agravamento do padrão cultural do povo português e de Portugal em geral, ou seja, para uma crítica à degradação da cultura e à divulgação da “cultura” chamada de massas.

E porquê o calão? Porque é considerado como o registo de língua típica das classes marginais e, como tal, pode ilustrar bem as opiniões e as atitudes do narrador face ao seu país. Este manifesta assim a sua liberdade na crítica, a consciência de que também ele é marginal não só do ponto de vista da sua avaliação crítica da sua pátria, mas também por sua oposição consciente à literatura oficialmente consagrada e à considerada canónica tal como às formas e aos modos de criação nessa literatura avaliados.

O narrador intensamente irónico deste livro tem, durante toda a narração, uma atitude negativa, uma atitude de HOMEM ZANGADO e DESILUDIDO, visto que está cheio de descontentamento e animosidade com o estado de Portugal e com o comportamento e a atitude dos portugueses de classe média e da burguesia contemporânea. Este estado de espírito, podemos compará-lo à desilusão e ao descontentamento típicos dos exilados políticos, quando regressados ao seu país, depois da queda dos sistemas totalitários ou depois da queda da ditadura, percebem que não verão correspondidas as suas esperanças de uma nova vida (da justiça com os representantes e residentes de velho sistema, do novo crescimento da cultura, do nível da educação etc.); depois, ficam profundamente desiludidos com a situação que encontram, a qual pode ser vista como uma reflexão num espelho curvo das suas esperanças.

Faço esta comparação devido ao facto de este livro ter sido editado após o regresso a Portugal de Manuel da Silva Ramos, o qual esteve exilado em França durante muitos anos. Podemos dizer que a focalização deste livro tem muito em comum com o escritor, que a desilusão do autor se projecta no modo de valorização e de apreciação de Portugal feita pelo narrador.

As coisas mais importantes que podemos sentir durante a leitura do Portugal, e o Futuro? são a fortíssima ironia e a desilusão. A atitude de HOMEM ZANGADO e DESILUDIDO não deixa o narrador sair do caminho da crítica irónica para tomar atenção também em outras coisas e passar levemente para o outro problema ou assunto. Um livro escrito assim parece que tem só um único alvo, que visa exclusivamente a crítica irónica e violenta.

Petra Formánková

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