Lenda da Moura de Albufeira

A sala parecia curta à impaciência de D. João. Mão direita na cruz da espada, cabeça curvada num ar de reflexão, deslocando os passos para cá e para lá, o fidalgo português dir-se-ia nem dar pelo calor asfixiante que fazia lá fora. As figueiras rasteirinhas eram uma oferta constante ao viandante por terras do Algarve. Mas D. João não pensava em figos, nem no calor, nem tão-pouco na paisagem maravilhosa que se avistava do castelo de Albufeira.

De súbito, sentiu passos no lagedo. Um grupo de cavaleiros aproximava-se. D. João correu o largo e pesado reposteiro. E D. Martim Fernandes entrou acompanhado de três dos seus homens de confiança. Perguntou logo a D. João:

— Conservais os prisioneiros?

D. João respondeu, sereno, como se a impaciência anterior jamais tivesse existido:

— Tenho os principais aqui mesmo no castelo. Os outros estão à parte. Procederemos com eles tal como fizemos em Faro?

D. Martim Fernandes fez um sinal afirmativo com a cabeça, antes de responder:

— Faremos o mesmo. Tal foi o combinado. Os que quiseram ficar serão afastados um pouco e pagarão os mesmos tributos que pagavam ao emir.

— E o ex-alcaide?

— Sua Alteza o Rei D. Afonso decidirá.

Suspirou fundo D. Martim.

— Bem… A moura, essa conservei-a separada e bem vigiada. D. Afonso não tardará em chegar.

— Dissestes-lhe quão difícil foi tomar este castelo?

— Não. Para as hostes de D. Afonso III não pode haver dificuldades. Mas el-rei conhece a guerra e compreenderá o esforço dos seus validos e o da minha Ordem. Esperemos, portanto, el-rei!

Dourava o Sol a areia fina da praia quando uma cavalgada anunciou a chegada de D. Afonso III de Portugal. A poucos metros do castelo, o rei português mandou fazer alto. Os outros cavaleiros pararam as suas montadas. De cabeça erguida, D. Afonso contemplava em silêncio esse castelo que fora tão rebelde em entregar-se. E admirou a sua esplêndida situação como sentinela do mar. Uma alegria intensa apoderou-se pouco a pouco do seu íntimo. Agora só lhe restava Loulé para ver realizado o sonho do seu pai: a conquista do Algarve aos Mouros!

Num impulso de entusiasmo, o rei gritou:

— Avante, senhores cavaleiros! Tomemos conta de mais uma praça arrancada aos infiéis!

E num tropel alegre e vistoso, em breve chegaram às muralhas de Albufeira.

Perfilados, o mestre de Avis — a quem cabia a maior honra da conquista de Albufeira — e os dois validos do rei esperavam-no.

O mestre adiantou-se, a receber D. Afonso.

— Senhor! Tomai conta de mais este castelo que ora pertence a Portugal.

D. Afonso desmontou e sorriu a D. Martim Fernandes.

— Para Portugal será, mas entregue à Ordem de Avis, que tão bem se houve nesta empresa. Quanto a vós D. João, reservo-vos uma surpresa.

Inclinou-se D. João.

— Senhor! Se não me achardes ousado, dir-vos-ei que também tenho uma surpresa para Vossa Mercê.

— Para mim? Pois deixai-vos de mistérios, que tenho pouco ânimo para longas esperas.

— Também era com impaciência que vos esperava.

— De que se trata? Encontrastes algum tesouro?

— Talvez, Senhor. Um tesouro humano!

— Que dizeis, D. João? Esclarecei-me, e já!

— Senhor! Os agarenos tentaram fugir depois da capitulação. Mas conservamos os principais como prisioneiros. E entre eles… a filha do alcaide, por quem mouros e cristãos estão rendidos!

Riu D. Afonso.

— Cuidado, D. João! Se exagerais, roubar-me-eis a alegria de acreditar em vós!

— Juro-vos que é linda!

— Mais do que a moura de Salir?

— Vossa Alteza o dirá, pois eu mesmo a irei buscar para a trazer à vossa presença.

Riu de novo, o rei.

— Aceito! Mas antes deixai-me entrar no salão nobre. Lá a levareis para que a veja. E não tardeis, meu leal servidor! Bem sabeis a quantas coisas um rei tem de atender, num tão belo dia como é sempre o da vitória.

O luxo do salão nobre deixou surpreendido a el-rei. Estava intacto, ainda. Ninguém lhe havia tocado. Dir-se-ia esperar a chegada de D. Afonso III.

Assim meditando, o rei não ouviu as esporas do cavaleiro batendo no lagedo.

— Senhor, aqui a tendes!

D. Afonso voltou-se. A sua admiração foi tão grande que não conseguiu reprimi-la. E exclamou:

— A minha expectativa foi ultrapassada, D. João! Ide e deixai-me só com tão precioso tesouro.

A moura parecia assustada. D. João inclinou-se e saiu. Ficaram soando os passos do cavaleiro. Depois reinou um curto silêncio. A voz do rei ouviu-se, por fim:

— Aproximai-vos. Que temeis?

A moura aproximou-se, mas não respondeu.

Ele descobriu-lhe mais o rosto, e a sua voz tomou uma entoação mais doce.

— Como vos chamais?

Num sopro quase, ela murmurou:

— Alina.

O rei sorriu-lhe.

— Sois a filha do ex-alcaide?

— Tal como pensais. E vós, Senhor, sois o rei de Portugal, Afonso III, que tanto mal tendes causado à nossa gente?

— A vós, nada de mau acontecerá!

— E aos meus?

D. Afonso hesitou um instante. A jovem começava a perder a timidez e tornava-se ousada. Respondeu-lhe, sereno:

— Sabeis decerto o que são as leis da guerra. Os vencidos não podem ter sorte igual à dos vencedores.

A moura olhou o rei bem de frente.

— Se assim é, Senhor, deixai-me ter a sorte do meu povo.

D. Afonso meneou a cabeça, sorrindo:

— Não, Alina, vós pertenceis-me!

— Pertenço-vos?

— Sim! Mas não como despojo de guerra…

— Então, se não me tomais como prisioneira, deixai-me partir!

— Não partireis. Estais ligada, desde este momento, ao coração do rei de Portugal! Ficareis junto de mim. Vivereis a minha presença, mesmo quando ausente. A minha presença e o meu afecto!

— Senhor… Mesmo que tivesse o vosso afecto não poderia ser feliz!

— Porquê?

— Porque não poderia retribuir-vos tamanhos favores!

— Deixai correr um pouco mais de tempo, e prometo-vos que derreterei o gelo do vosso coração com o calor dos meus beijos…

Alina afastou-se, receosa. Mas replicou:

— Senhor, não é de gelo o meu coração, visto que estou prometida a um mouro que muito me quer.

O rei franziu o cenho. Perguntou:

— E quem é esse mouro feliz?

— Aben Farah. Um dos vossos prisioneiros de honra.

Sorriu, o rei, embora sem vontade. Repetiu:

— Aben Farah? Hei-de vê-lo ainda esta tarde!

Alarmou-se, a jovem.

— Para o entregardes à morte?…

O rei olhou a moura. Estendeu-lhe as mãos, sorrindo brandamente. Alina hesitou. Mas não resistiu à doce persistência com que o rei a fitava. Estendeu-lhe também uma das mãos. O rei puxou-a para junto dele.

— Alina! Se eu mandasse matar Aben Farah, jamais seríeis capaz de amar-me… E eu necessito do vosso amor, compreendeis?

— Insistis, Senhor?…

— Só por insistir conseguimos estes castelos. Se tivesse desanimado aos primeiros embates, nem Albufeira pertencia agora ao meu reino, nem vós ao meu coração. Por enquanto, só quero de vós uma promessa…

— Qual, senhor?

— Deixar-vos amar com o desejo de chegar a amar-me.

Alina baixou os olhos. Sentia a pressão dos dedos do vencedor, tão suave como firme. O sangue latejava-lhe nas veias. Ergueu o rosto e disse, solene:

— Senhor! Se puserdes em liberdade meu pai e Aben-Farah, prometo-vos esquecer o meu passado.

D. Afonso atraiu mais a si a jovem moura.

— Alina, que feliz promessa! Por mim vos juro que hoje mesmo vosso pai e Aben Farah serão postos em liberdade… embora os conserve longe de vós…

Dois anos passaram. El-rei D. Afonso III continuou pelejando contra os Mouros e até contra Castela. Mas o seu coração ardia de amor pela formosíssima moura de Albufeira, a qual lhe havia dado um filho. Sempre que podia, fugia para os braços de Alina. E foi numa dessas fugas que D. Afonso III foi encontrar pálida e triste a bem-amada do seu coração. Fitando a sombra negra dos seus olhos, ele interrogou-a, mal a viu:

— Que me escondeis, Alina?

Ela tentou disfarçar. Pensou o rei que seria por estar presente D. João. Ia pedir-lhe que se retirasse, quando a jovem impediu essa ordem com um gesto da sua pequenina mão.

— Deixai ficar D. João, cuja companhia tanto vos agrada. Nada tenho de especial a comunicar-vos, Senhor…

O rei meneou a cabeça, pensativo.

— Escondeis-me a verdade, Alina. Estou habituado a ler no vosso olhar. E ele hoje está inquieto. Que me escondeis?… O nosso filho?

— Continua bem, meu Senhor.

— E o vosso coração?

— Cada vez mais vosso, Senhor! Sois o meu bem-amado, que tudo faz para que eu esqueça o que fui.

— Então… por que temeis?

— Sim… talvez seja medo… Um medo estranho de que aconteça algo de mau a vós ou ao nosso filho.

D. Afonso tomou-lhe as mãos. Estavam frias e húmidas.

— Estais, na verdade, receosa. Que se passa? Falai!

Ela desviou os olhos, sem dizer palavra. D. Afonso insistiu:

— Por que escondeis de mim vossos olhos tão belos?

E voltando-se para D. João:

— Talvez vós possais explicar-me.

D. João mostrou-se confuso.

— Senhor, na verdade existe algo que nos preocupa. Um dos vossos homens já por várias vezes, à meia-noite, e estando na chefia da guarda do castelo, avista um animal estranho rondando a porta que dá acesso aos aposentos particulares de Vossa Alteza.

D. Afonso olhou o valido com espanto.

— Um animal estranho? Que espécie de animal?

— Senhor… Não é carneiro, nem cão, mas um misto desses dois…

Aumentou o espanto do rei português. Nos seus olhos despontou um clarão irónico. Mas D. João parecia seguro do que dizia. Continuou:

— Pois esse estranho animal, quando perseguido, foge sem deixar rasto.

Vendo o rosto de Alina cobrir-se de pavor, o rei tentou sorrir.

— Vamos, estais decerto a exagerar. Um simples animal que foge quando perseguido não pode ser a causa do pavor que leio nos olhos da minha Alina!

Ela concordou, aflita:

— Sim, meu senhor! Nunca mais tive sossego.

— E porquê, meu bem?

— Porque receio por vós… E pelo nosso filho Martim Afonso!

O rei começou a impacientar-se.

— D. João! Vós, que sois um brioso cavaleiro, também receais um pequeno animal fugitivo? Pois bem! Matai-o, já que ele tanto perturba o sossego da minha bem-amada!

E sorrindo ironicamente:

— Talvez eu o encontre ainda esta noite…

Alina gritou, quase:

— Não, meu senhor!

Franziu o rei a sua testa alta.

— Alina, por que vos afligis assim?

D. João achou que era o momento de intervir.

— Senhor! Diz-se por aí que esse animal estranho é o mouro Aben Farah, que visita o castelo sob esse encantamento, no propósito de se vingar de vós e levar consigo o pequeno Martim Afonso.

O rei franziu mais a testa, numa ruga profunda. Silenciou por instantes. Depois olhou com mais ternura a jovem moura.

— Minha pobre Alina. Compreendo agora a vossa ansiedade. Mas descansai. Enquanto aqui estiver reforçarei a guarda do castelo. E quando eu partir, ireis comigo.

Os olhos de Alina encheram-se de lágrimas. Tomou as mãos do seu senhor e beijou-as, exclamando:

— Como vou ser feliz! O meu coração pertence-vos! Por vós atraiçoei as minhas juras… Por isso Aben Farah tenta vingar-se. Não é por mim que receio, pois morreria feliz pelo vosso amor. Mas temo por vós e por ele, o filho das minhas estranhas e do rei de Portugal!

D. Afonso III acariciou o rosto da jovem Alina. Murmurou-lhe:

— Ireis comigo quando eu partir, e connosco irá também o nosso filho. Quanto a Aben Farah, nada deveis recear.

E olhando intencionalmente o valido, que já havia cumulado de bens:

— D. João! À vossa guarda e cuidado confio o meu filho. Um filho que desejo ver crescer forte como o pai e belo como a mãe, a linda moura que encontrei um dia no castelo de Albufeira!

D. João perfilou-se numa jura muda. Compreendera a responsabilidade que lhe cabia e tudo quanto teria de fazer para que se cumprisse a vontade do seu rei.

Enlaçando a bem-amada, D. Afonso seguiu pela alameda. E D. João, um pouco pensativo, ficou-se a olhar o casario que se avistava, as árvores que pendiam para a terra, a areia dourada coberta de sol, o mar azul, tão cheio de belezas e mistérios. Sim, ele sabia o que teria de fazer para ser fiel à promessa feita ao seu rei. E não hesitaria!

No ar passou voando uma andorinha. No mar uma onda desfez-se em espuma de encontro a um rochedo. Era a vida! A vida que continuava para além do próprio encantamento!

MARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 55-60

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