A Lenda de Tavira

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Diz a lenda mais antiga
Das lendas que eu cá conheço,
Que uma moita rapariga
De olhar brilhante e travesso,
Que por nome era Taah Billa

E morava ali bem perto
Da ria verde e tranquila,
Tão longe do seu deserto
De onde seu pai a trouxera…
Morava, dizia a lenda,

Como irmã da Primavera,
Num palácio de oiro e renda.
Eram os muros talhados
Em puro e louro metal,
Tão perfeitos, trabalhados

De maneira original,
Que quem p’ra eles olhava,
Não sendo filho de Allah,
Não mais vivo ali ficava,
Para não ficar por lá.

Iam príncipes cristãos,
Cítaras dadas ao vento,
À moira pedir as mãos
Em sinal de casamento.
Mas o pai, Alli Maommede,

De armas valente caudilho,
Todos matava de sede,
Que a nenhum qu’ria por filho.
Choravam, então, as luas,
Os astros, os outros sóis,

Por verem mortas e fluas
As carnes de tantos heróis.
E Taah Billa, a pobre moira,
Moira de tanto encantar,
Perdeu sua trança loira,

Começou a definhar.
Por cada moço cristão
Que seu pai ali matava,
Pedia ela a Allah perdão,
Dizia ser d’Ele escrava.
De cada morto nasciam

Amendoeiras sempre em flor,
Que aos verdes campos traziam
Outro encanto bem maior.
Mas à princesa agarena
Falava o pai, duro e forte:

— “Tu de mim não hajas pena,
“Mesmo que te mate a morte.
“Nenhum cristão pode vir
“Aos muros deste palácio…
“Nem hoje, nem ao fulgir

“De algum astro violáceo.
E a princesa morria.
Não era quem dantes fora,
Que mesmo à luz do seu dia,
Era a noite a sua aurora.

Alli Maommede mandava
Vir de outras terras do Islão
Algum califa a quem dava,
Da filha, a pálida mão.
Pálida, que todo o sangue,

Há muito, dela fugira.
Já o seu corpo era langue,
Morto, p’lo pai, com tal ira.
Porém, por tudo ou por nada,
Nenhum moiro lá chegava,

E a linda moira, coitada,
Definhava, definhava.
Mas uma vez.., uma vez,
Sobreveio ali passar
Um valente português,

Filho da terra e do mar.
Era poeta e cantava
Seus versos feitos de amor;
Se a lua, ao longe, escutava,
O luar era maior.

“Vem, Taah Billa moira, vem
“Do teu palácio encantado
“A meus braços, que, também,
“Te darei outro em dobrado.
“Vem, mulher enamorada,

“Té junto do coração;
“Como vês, não custa nada
“Esculpir-te uma canção.
Já Taah Billa revivia
Ao rumor desta cantata

E um alaúde trazia,
Pelas suas mãos de prata.
Do alto do seu castelo
Logo a moira respondeu
Com uni canto doce e belo,

Com voz que vinha do céu:
‘Vivo tão triste de mim,
“Tão dos meus já separada,
“Que vejo em breve o meu fim,
“Se não for de aqui levada.

“É, por isso, anjo do céu,
‘Que te peço que me tires
“Deste palácio que é meu,
“E, parto, se tu partires.
O cavaleiro, perdida

A razão de ser prudente,
Logo ali lhe deu a vida
Pia vida dela somente.
E convidou-a a partir
Por essa noite de prata,

Por caminhos de seguir
À luz duma serenata.
Mal um passo era já dado,
Na carreira prometida,
Desígnio triste do fado

Aos dois lhes mudou a vida.
Foi o caso que apar’ceu,
Vindo não se sabe donde,
Talvez caído do céu
Por nele não ter avonde,

O pai da moira princesa,
Que de pronto acometeu,
Com vigor e com rudeza
O cristão que prometeu
Defender a sua amada…

E logo ali trespassou,
Co’uma valente estocada,
O moiro que se finou.
“Já livres somos, Taah Billa…
“Podemos, livres, partir…

E na sua voz tranquila
Há trinados a sorrir.
“Vamos, pois, meu bom Senhor…
“Toda a minha vida é tua…
Nascia neles amor,

Ao longe brilhava a lua.
Tudo, agora, parecia
Que iria acabar em bem,
Pois a princesa sorria,
Sorria o cristão… Porém…

É a lenda que me conta,
A lenda que tudo diz,
Que depois daquela afronta
Nenhum deles foi feliz.
Pois Allah, que tudo ouvira,

Aos dois ali decretou
Que mataria a mentira
Dum amor que não gerou.
E, num momento vazio,
Pronto desfê-los no ar,

Pra ser um… água do rio,
E ser o outro… água do mar.
A partir desse momento
O Gilão, sempre a chorar
E a correr em passo lento,

Tem caminhado pró mar…
E até os sóis verdadeiros
E a lua ao longe, tranquila,
Perguntavam, viajeiros:
Tabilla, aonde és, Tabilla?

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Foi assim que o Povo ouviu,
Das gerações, essa voz
Que uma à outra a transmitiu
E mora dentro de nós.
Inda mais me diz a lenda,
Que é verdade e não mentira,
Que o lugar, como legenda,
Houve por nome TAVIRA.

LOPES, Morais Algarve: as Moiras Encantadas s/l, Edição do Autor, 1995 , p.120-127

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