Cultura De Massa

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…o que é cultura? Ela é reflexo de quê? Quem tem a autoridade para legitimá-la?

A humanidade passou por tempos nos quais quem classificava e por consequência produzia a cultura era a igreja. Obviamente um domínio de autoridade cultural nada imparcial e pouco democrático. Os parâmetros para a composição musical, por exemplo, passavam por crivos religiosos e o que se chamava de “belo” estava estritamente ligado às questões sacras. Noutro momento, por volta de 1700, esse poder foi dado à nobreza. Que ditava, baseada em parâmetros relacionados à busca de um status social, o que se deveria compor e executar nas salas de concerto ou nos ambientes nobres. Agora, voltemos os olhos para os primeiros anos da década de 1920. Surge no Brasil o rádio. E é ele (ou quem o rege) que agora tem o poder da difusão e autoridade cultural. Isso se intensifica trinta anos mais tarde com o advento da televisão. A partir desses dois marcos históricos vemos um grande período em que a mídia dita as preferências no que diz respeito a várias áreas do cotidiano, para citar poucos temos a ética, a moda e a música. Há, portanto a continuidade de uma manipulação do gosto, e fugir desse regimento é se inscrever entre os ignorantes.

O que tem sido difundido em matéria de música pela grande mídia carrega o pressuposto de cultura legítima, e isso coloca esse material numa espécie de “vitrine cultural”. Mas quem legitima esse material? Quem diz o que é ou não produto cultural? Quem tem essa autoridade? Sim, porque ao que parece, o que chamamos de produção cultural (pelo menos em relação à música) tem se tornado uma carruagem a esmo. É preciso que se estabeleça uma ordem nos parâmetros de autoridade cultural, parecido com o que fizera Schoenberg com a composição musical erudita. Não bastasse ser absurdo aceitarmos uma cultura artificial forjada nos moldes urgentes da indústria, parece que essa linha de produção perdeu seus filtros éticos e morais. A mídia brasileira tem divulgado “produtos” que envergonham qualquer ouvinte minimamente instruído. Esse parece ser o ponto mais caótico na “história da cultura”, pois jamais se teve materiais tão grosseiros sendo colocados nessa “vitrine” da produção cultural.

A música popular brasileira é de uma riqueza e beleza admiráveis. Ritmos extremamente ricos, uma harmonia e melodia invejada no mundo todo – tome-se a bossa nova como exemplo. Mas nas últimas décadas a música popular tem sido reconfigurada por um material de péssima qualidade. O tal sertanejo universitário – que nada trás do sertanejo raiz – e o funk carioca são pobres em harmonia, pobres em melodia, pobres em ritmo e com uma letra irrisória e imoral – principalmente o funk.

É isso o que tem sido amplamente divulgado pela mídia. A TV mostra em horário nobre e com entusiasmo as imoralidades contidas nas letras e a banalização da beleza feminina que, não sei como, não causam repulsa aos espectadores. Há quem possa dizer que a produção de música popular é reflexo da realidade vivida pelos agentes, se assumirmos isso, há de se fazer alguma coisa em prol de uma mudança, quer seja na linha de produção cultural – adicionando minimamente alguns filtros – ou na realidade do cotidiano dos agentes que receberam, não sei de quem, a autoridade de legitimação e difusão cultural. Toda a poética e beleza que a música é capaz de transmitir têm sido trocados por um lixo imensurável.

A música popular, já faz muito tempo, tem como característica principal ser uma música intelectualmente mais próxima do povo bem como uma música que sirva ao entretenimento. Justo. Mas o que não se justifica é essa imbecilidade contida em alguns seguimentos da música popular nas últimas décadas. Talvez isso seja mais um efeito de uma decadência moral percebida em todas as esferas da sociedade. A ganância da indústria escraviza – em estética politicamente correta – seus funcionários, e não é diferente para àqueles que se colocam a serviço da indústria de bens culturais.

A ordem do dia é que se produza qualquer coisa que seja vendável. Não importando a relação que esse produto tenha com a arte, a ética e a moral.

DiárioOnline

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